SAÍDA #55
Por mais janelas
Foi rolando o feed (infinito) do Instagram, durante uma viagem recente pro Rio de Janeiro, que me deparei com esse lema:
“Menos telas, mais janelas”
Na mesma velocidade com que essa frase apareceu para mim, ela foi embora. Não consegui salvar a autoria a tempo. Mas no meio de tantas frases, vídeos, fotos e textos, aquela seguiu comigo. Certamente, por conta da sincronicidade do momento em que eu a pesquei.
Sempre brinco que cada viagem tem uma temática própria, como se cada uma me trouxesse aprendizados ligados a um certo aspecto da minha vida. Uma série de acontecimentos, aparentemente aleatórios, mas que pra mim estão interligados. Todos chamando minha atenção para uma mesma lição.
E durante essas três semanas que passei no Rio, não tive dúvidas: eu estava num momento de repensar a minha relação com as telas. Por mais que eu tenha consciência, e sei do vício coletivo que estamos enfrentando, a verdade é que quando consulto o “Tempo de tela” do meu celular sempre me assusto com as horas que passo ali dentro todos os dias. Tenho me assustado também com a minha incapacidade de esperar uma fila, os andares do elevador ou o sinal fechado no trânsito, com as mãos livres.
E nessa viagem, os acontecimentos que me levaram a olhar para isso, contaram com a participação de uma protagonista: a Janela Livraria. Eu a encontrei pela primeira vez, durante um dos eventos que me levaram ao Rio: o Rio2C , “o encontro de criatividade da América Latina”. 6 dias, com 21 palcos simultâneos e mais de 2 mil palestrantes de dezenas de países. E nessa agenda recheadíssima, tinha algo em comum todos os dias: no início de cada noite, tinha uma sessão de autógrafos com algum autor. E, para a minha surpresa, um dos livros era justamente um que eu já estava de olho desde a pré-venda. Fiquei encantada com a autora ao escutá-la no episódio “Coragem para recomeçar” de um dos meus podcasts preferidos, o Bom Dia, Obvious, da Marcela Ceribelli.
Foi graças à Janela Livraria, que eu pude ganhar, além da dedicatória, um abraço apertado e um olhar profundo e brilhante da autora do livro: a Luanda Vieira.




E nos meus primeiros dias de viagem, ao voltar para o quarto de hotel, foi o livro dela que me convidou a sair do celular. E nos dias seguintes, foi a escrita dela, que me fez pegar o livro cada dia mais cedo (e não só nos minutinhos finais da noite, quando já estou quase fechando os olhos para dormir). Combinei comigo mesma que não mexeria no celular depois do evento. Resultado: terminei o livro em pouquíssimos dias, como há tempos não acontecia. Ficou claro pra mim, o tipo de coisa que os algoritmos têm me roubado.
A segunda semana do Rio, foi com amigos que agora moram lá. Um casal tão desapegado das telas, que a convivência com eles, sempre gera um contraste, que me faz perceber melhor o tanto que o celular invade cada brecha da minha rotina. Os nossos tempos juntos, geralmente, são baseados em passar horas conversando e caminhando, com as mãos e os olhos livres, para olhar nos olhos e admirar o cenário da cidade maravilhosa. Outro passeio comum com eles, é irmos a livrarias. Quando contei da Janela Livraria, que eu tinha descoberto no Rio2C, eles ficaram muito curiosos para conhecer alguma unidade dela na cidade. E foi assim que terminamos a tarde de uma quarta-feira, no Jardim Botânico, conhecendo uma livraria pequenininha, com mesas e cadeiras na calçada. E a vitrine me marcou. Tinham quatro palavras grandes, formando uma lista: “encontros, livros, vinho, café”. E não, “livros” não estava no topo da lista. Era “encontros” que estava lá. E depois eu descobri, que não era só na vitrine. As quatro unidades deles respiram isso: vários clubes do livro, eventos de lançamento, encontros literários, café e bolinho, mesas e cadeiras… Eles querem acima da leitura, que as pessoas estejam juntas no mundo real. Inclusive, teve tudo a ver, eles terem recebido, no domingo passado, na unidade que fica dentro do Museu do Amanhã, o Rolê dos Livros, um encontro onde as pessoas se reuniram para lerem juntas, cada uma lendo o que quiser, sem telas, nem distrações.
Nessa tarde, eu saí com um livro, daqueles que parecem pular da estante para as nossas mãos. O Descansar é Resistir, da estadunidense Tricia Hersey, baseado em sua experiência em teologia, afrofuturismo, ativismo e arte. Ela defende que o descanso é um direito social, e que não diz respeito a uma ação individual, e sim coletiva. Ao olhar para a história de libertação dos povos negros dos Estados Unidos, ela percebeu que o descanso, a festa e a alegria sempre foram estratégias eficazes de sobrevivência. E após anos percebendo a renovação que sentia ao cochilar, ela começou a convidar pessoas para tirar cochilos coletivos. Foi assim que ela criou o “Ministério do Cochilo”, onde aborda o descanso como uma prática política, e um ato de resistência contra a cultura do esgotamento, da produtividade tóxica e do capitalismo. Desde 2015, ela realiza sessões de cochilos coletivos em instalações temporárias de descanso. E tem espalhado a ideia de retomar nosso corpo como nosso, e não do trabalho. De que os momentos de descanso não devem existir só para aumentar a nossa produtividade, que não é algo merecido só depois de horas de exaustão.
Esse foi o segundo livro que comecei, e terminei, na viagem. E como foi essa a leitura que me acompanhou durante os dias em que estávamos com os nossos amigos, foi natural o descanso virar pauta (e até brincadeira!). Passamos duas das nossas tardes juntos, nós quatro na sala, espalhados no sofá e no tapete. E adivinha fazendo o quê? Cochilando. Sem celular, sem TV, nem conversa. Nós quatro ali dormindo juntos, por alguns minutos, no meio dia. Era o nosso Ministério do Cochilo. Comprovamos na prática o poder restaurador que existe no descansar com intenção (e que pode ser ainda melhor, se feito coletivamente!).
Mais um presente que a Janela Livraria me trouxe nessa viagem. Eu já estava encantada pela livraria, mas acabei me apaixonando de vez, quando tive a sorte de assistir a uma palestra de uma de suas criadoras, durante o segundo evento que participei no Rio: o WebSummit - um dos maiores eventos de tecnologia, inovação e negócios do mundo. Era um evento bem mais frio, eu não imaginava que seria ali que eu conheceria uma das empreendedoras mais humanas e encantadoras que eu já vi: a Martha Ribas. Eu tive a chance de perceber que a Janela era um transbordamento dos valores, cuidado e feminilidade dela. Que a sua profunda confiança no poder transformador da leitura, dos encontros e dos abraços tem feito ela colocar grandes projetos na rua. Projetos que fazem bem para a humanidade. Ao final do seu painel, eu tava preenchida por saber que tem gente fazendo negócios (e prosperando!) seguindo lógicas como as dela (em breve, volto para contar mais sobre isso).
É… Quando pesquei aquela frase, nos meus primeiros dias no Rio, eu não podia imaginr o quanto ela iria crescer em significado para mim. E hoje eu finalizo por aqui, torcendo para que ela também te atravesse. Que te convide a repensar (e ter forças para lutar) o seu hábito com as telas. O meu profundo desejo é que os seus dias, e os seus olhos, possam encontrar muito mais janelas (com j minúsculo e maiúsculo), do que telas!
* Se você lembrou de mais alguém que tá precisando receber esse convite, não deixe de compartilhar e chamar para assinar a SAÍDA também! :)
Com carinho,
Aída Dias





Caramba, eu sou seguidor do ministerio do cochilo e nao sabia. Uma rotina sagrada do fim de semana que pode ser feita em qualquer posicao ou lugar (na horizontal ou discretamente na cadeira da cozinha).
Com essa coisa de jogo da Copa do Mundo de madrugada, dias desse eu liguei a TV, e a tela estava 'parada'. Era muito cedo e a programacao ainda nao tinha comecado. Que bacana foi ver uma tela que nao rola infinitamente.
Adorei a rede de conexões que você criou ao longo do texto para nos propor mais janelas!