SAÍDA #56
Luto da Inovação
A tecnologia inundou rápido as nossas rotinas. Uma mesma pessoa pôde vivenciar tantos mundos diferentes. Sempre me lembro do meu avô: que no início, andava a cavalo para levar uma mensagem de uma cidade a outra. E no final, podia fazer ligação de vídeo com um neto em outro país.
Apesar de todo o lado viciante e preocupante da participação do celular na nossa rotina, são inegáveis as facilidades e praticidades que ele nos traz. Mas vale nos questionarmos: tem sido assim para todo mundo?
Um dia desses, no Festival Internacional de Cultura de Aprendizagem, fui apresentada a um conceito: o Luto da Inovação. Apesar de nunca ter ouvido o termo, a sensação já era bem familiar.
O estrategista de marca Aaron Powers começou falando de como, em geral, aqui no ocidente, nós lidamos mal com o luto. De forma rápida, solitária e barata.
Rápida: Não damos tempo suficiente para digerir todas as emoções que vêm à tona, somos empurrados a virar a página o quanto antes.
Solitária: Diferente de outras culturas, não vivemos o luto coletivamente, bem acompanhados e bem amparados. Costumamos estar muito sozinhos nessa travessia.
Barata: Tentamos tapar o vazio da perda com distrações superficiais, anestesiando a dor com fugas rasas e estímulos passageiros em vez de realmente senti-la.
E Aaron faz um paralelo, dizendo que é exatamente com essa mesma frieza que o mercado de tecnologia lida com a inovação. Quando uma marca impõe uma nova atualização ou descontinua algo que amávamos, ela nos obriga a um desapego rápido, não nos dando tempo para nos despedir de um modo de fazer antes de introduzir o novo. É um processo solitário, pois ficamos desamparados lidando com a frustração de reaprender uma rotina que não pedimos para mudar. E, por fim, é uma troca barata, em que as empresas simplesmente agem como se o passado não importasse, atropelando os laços que criamos e tentando compensar nossa desorientação com discursos vazios de melhoria.
Pensando nesses atropelos, é fácil perceber que algumas pessoas são mais desrespeitadas do que outras. E é inevitável pensarmos em como os idosos estão sendo tratados diante de tantas novidades forçadas, como bem traduziu o chargista Tom Cotrim:
Foi por isso que essa semana, ao chegar para trabalhar, fiquei muito tocada ao ver que o P7 Criativo, o hub de Economia Criativa, que ocupa o icônico prédio de Oscar Niemeyer na Praça 7, sediou a exposição fotográfica “Conectando Histórias - Memória, pertencimento e afeto entre gerações”, uma mostra que documenta o resultado de uma iniciativa do SESI de alfabetização digital de idosos. As fotografias registram a convivência e os vínculos formados entre os idosos que estavam aprendendo a usar novas tecnologias e os jovens que os ensinavam.
Eu tive a alegria de entrevistar a Marcela Gontijo, que trabalha com Projetos Sociais, na frente SESI Responsabilidade Social. E o que ela me contou resume bem a beleza dessa iniciativa: “o que mais vimos foi um aumento muito grande da confiança dessas pessoas. Muitos chegaram inseguros, com medo da tecnologia, e terminaram o projeto usando o celular com mais autonomia, conversando com familiares, registrando momentos e se sentindo mais incluídos no mundo digital. Mas a transformação não foi só tecnológica. Houve um fortalecimento da autoestima, da convivência e do sentimento de pertencimento. Acho que a exposição convida o público justamente a olhar para além da idade”.
E quando perguntei sobre o que mais a marcou nesse processo, ela ressaltou que foi “perceber como pequenos avanços, que muitas vezes parecem simples para quem já domina a tecnologia, representavam grandes conquistas para eles. É difícil escolher apenas uma história, porque cada fotografia carrega uma trajetória única. Mas sempre me emocionava ver o orgulho estampado no rosto dos participantes quando viam suas próprias fotos expostas. Muitos nunca tinham vivido essa experiência de serem protagonistas de uma exposição. Ver a alegria deles ao trazer a família para conhecer o resultado foi, sem dúvida, um dos momentos mais marcantes de todo o projeto”.
Eu espero que a gente, como sociedade, possa aprender a lidar cada vez melhor com o luto. Que a gente dê a ele mais tempo, mais companhia e mais atenção. Que a gente possa olhar com mais sensibilidade e acolhimento para tantas perdas que nos são impostas todos os dias.
E para nós, mais jovens, que esse admirável mundo novo, que a tela do celular nos apresenta todos os dias, não tire de nós a capacidade de valorizar e aproveitar a sabedoria que os mais velhos carregam. Que a gente nunca substitua a tecnologia mais potente de todos os tempos: a conversa.
#Saideira Essa semana rolou uma das coisas que mais amo: ser turista na minha própria cidade! Pude conhecer um pouco da vida pulsante e criativa da favela Aglomerado da Serra. O episódio da “SAÍDA por aí” foi ao ar ontem:
Se preferir assistir pelo YouTube, é só clicar aqui!
Se tiver curtido, deixa seu coraçãozinho ou um comentário para eu saber, vou adorar descobrir como essa SAÍDA chegou para você!
*P.S.: As palavras em roxo são links para conteúdos externos.
Com carinho,
Aída Dias







Boa reflexão!
Já escutei algumas vezes de pessoas idosas: sou um analfabeto em tecnologia!
Isso é para os jovens!
Não entendo nada.
E essa constatação negativa invalida seu conhecimento, sua experiência, sua bagagem diante a atualidade.
Essa iniciativa do Sesi é digna de aplausos!
Parabéns!.
Parabéns pro Sesi e pra Saída. Me sinto acolhida e representada por esse projeto cheio de sensibilidade.
Associar o desespero que muitas vezes sinto por não ter o papel nas mãos, a tesoura p recortar e depois colar as figuras, a caneta para marcar os textos... enfim, chamar toda essa falta de Luto nomeou meus sentimentos muitas vezes conflitantes.
Que tenhamos, junto com essa velocidade tecnológica, a capacidade de perceber, incluir e acolher os que caminham em passos desacelerado, os que contemplam e conservam afeto ao lápis, apontador e tantos outros (rss).
Gratidão Saída por aí, esse nosso passeio pelo P7 Criativo mudou o meu dia.